Era de madruga, o silêncio pairava ao pensamento aberto, foi
quando então resolvi levantar e fazer um café, engraçado que para algumas
pessoas café é sinônimo de insônia, ainda mais um expresso duplo como gostava
de tomar as vezes que fiquei sentado as duas da madrugada olhando os pouquíssimos
carros que passava por entre a sacada de meu prédio – um simplório apartamento de
12 (doze) andares situado as margens da Almirante Barroso – e eu, morador do
12ª (décimo segundo) andar, rabiscava em meus pensamentos uma saudade infinita
de mim que por vezes me perdi sem a pretensão de me encontrar.
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| Desenhista: Gualdino Pimentel |
Por hora me sentei, e apesar daquele expresso ter esfriado,
tomei assim mesmo bem verdade, não suporto café frio, mas fazer o quê? Por
alguns minutos, deixei meu celular de lado e comecei a observar um paralelo
existente ao meu redor, observei as cores da parede da sala, dos vasos,
observei o vazio, e foi então, que aquele sentimento de culpa me tomava ao braço
me puxando feito refluxo das ondas me afogando nas frases que tentei
pronunciar, sim, eu estava preso naquele sonho ao reflexo de toda a equidade
posta à prova, de um mundo em que pensei existir e não existia.
Embora assustado, aquela madrugada já não me causara espanto, e
ao perceber o relógio parado a exatamente as 3:00 (três), respirei fundo e
descobri que algo havia mudado, os livros já não mais estivera na mesma
posição, o expresso continuava ao lado da cama totalmente frio, os quadros da
sala já não possuíam o mesmo tamanho e eu, eu não me reconhecia, tornei-me estranho
de um reflexo convexo preso ao espelho por exigir de tantas pessoas o que não
ofertava, pois bem, engoli a seco toda a angustia, vesti minhas verdades e
joguei fora todas as mentiras que contei e se for pra escancara, escancaro,
bato no peito o imperfeito e quem me quiser, que me queira apesar das
desavenças, embora assustado, aquela madrugada já não mais me causara espanto,
pois prefiro o reflexo do vazio a que viver de aparências e então, sentir-se só
e não amando ninguém.
Autor: Leandro C. de Lima

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