segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Reflexos

Era de madruga, o silêncio pairava ao pensamento aberto, foi quando então resolvi levantar e fazer um café, engraçado que para algumas pessoas café é sinônimo de insônia, ainda mais um expresso duplo como gostava de tomar as vezes que fiquei sentado as duas da madrugada olhando os pouquíssimos carros que passava por entre a sacada de meu prédio – um simplório apartamento de 12 (doze) andares situado as margens da Almirante Barroso – e eu, morador do 12ª (décimo segundo) andar, rabiscava em meus pensamentos uma saudade infinita de mim que por vezes me perdi sem a pretensão de me encontrar.

Desenhista: Gualdino Pimentel
Por hora me sentei, e apesar daquele expresso ter esfriado, tomei assim mesmo bem verdade, não suporto café frio, mas fazer o quê? Por alguns minutos, deixei meu celular de lado e comecei a observar um paralelo existente ao meu redor, observei as cores da parede da sala, dos vasos, observei o vazio, e foi então, que aquele sentimento de culpa me tomava ao braço me puxando feito refluxo das ondas me afogando nas frases que tentei pronunciar, sim, eu estava preso naquele sonho ao reflexo de toda a equidade posta à prova, de um mundo em que pensei existir e não existia.

Embora assustado, aquela madrugada já não me causara espanto, e ao perceber o relógio parado a exatamente as 3:00 (três), respirei fundo e descobri que algo havia mudado, os livros já não mais estivera na mesma posição, o expresso continuava ao lado da cama totalmente frio, os quadros da sala já não possuíam o mesmo tamanho e eu, eu não me reconhecia, tornei-me estranho de um reflexo convexo preso ao espelho por exigir de tantas pessoas o que não ofertava, pois bem, engoli a seco toda a angustia, vesti minhas verdades e joguei fora todas as mentiras que contei e se for pra escancara, escancaro, bato no peito o imperfeito e quem me quiser, que me queira apesar das desavenças, embora assustado, aquela madrugada já não mais me causara espanto, pois prefiro o reflexo do vazio a que viver de aparências e então, sentir-se só e não amando ninguém.


Autor: Leandro C. de Lima


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